Com essas crises de ultimamente, estive pensando em abrir um negócio. Mas não um negócio qualquer. Buscava pra ele uma originalidade incomparável. Uma loja de confecções ou uma farmácia jamais serviria. Descartei esse ramo. Queria algo popular, de apelo visceral, com um quê apelativo, um matiz simbólico, para uma publicidade poderosa. Devia também ser algo simples e nunca pensado. Uma coisa tão óbvia a ponte de ter sido esquecida. Como o ar por exemplo. Mas como se faz pra se vender algo que se recebe de graça? Eu acabaria em decadência. Seria preciso esperar a chegada da grande idéia.
De repente a grande idéia chiou na chaleira! Um bar de mate! Eureca!
Vai dizer que nunca estranhou que uma cidade gaúcha não tivesse um bar de chimarrão? Já ouvi falar de gente que conheceu até onde Judas perdeu as botas, aliás, que até encontrou as ditas botas; mas bar de chimarrão,viram tanto quanto gaúcho de bombacha lilás.
Encontramos a cuia, a erva, a bomba...Mas chimarrão pra vender, nunca!
Mas pensando melhor, descobri não ter tino para os negócios. Minha brilhante idéia se revelou uma idiotice. Mate é algo que não se compra e nem se vende. Toma-se com a família e os amigos, na casa dos compadres e dos vizinhos, com pessoas conhecidas...
Pagar um mate é uma idéia tão absurda quanto imaginar um peão bebendo água de coco na beira do fogo.
Os gaúchos têm esse triunfo único, um símbolo robusto entre as coisas fora do comércio, algo como a mãe da gente, a água, o ar, a amizade, o amor, o lar, a hospitalidade, o carinho, e a paz. Coisas ainda imprescindíveis mas incomparáveis e invendáveis.
Mate é como escapulário e homenagem: comprar não vale. O sentido está na gratuidade, fazer e ofertar sem quantificar o valor em preço. Basta um abrir-se de porta da alma dos outros, sua pessoalidade de pampa e de vento se revelando à varanda. Ninguém vende mate porque é impossível fazê-lo levando junto a hospitalidade dos amigos e a prosa leviana.
Na roda de mate a subjetividade se enriquece no escambo de pedaços de vida e mundo.
Mesmo que alguém invente um lugar maravilhoso para comprar chimarrão, é um negócio sem futuro. A não ser que consigam oferecer, no cevar do mate, laços de família, presença de amigos, esse jeito de desfiar a vida sem pressa. Neste caso, seu preço seria tão alto que só daria certo em Las Vegas. E em Las Vegas a bebida do momento é champanhe e as pessoas não estão lá para encontrar-se com a família ou achar amigos.
Oxalá, jamais alguém invente um bar de mate! Deixemos os vendedores com acarajé, caipirinha, paella, café...Que os gaúchos continuem servindo o mate puder ser comprado nos bares, já terão mercantilizado os bons sentimentos. Restarão as nuvens e o vento. Isso se alguém não inventar um modo de engarrafá-los.
Recebida a cuia, partilhe o lirismo simbólico da cuia e da erva. Só não mexa na bomba. O lirismo gaúcho não tolera frescuras.
Muito bom. Muito bom mesmo. tem alma.
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