quarta-feira

Pra Fazer um Samba com Beleza

Porque todos os contos de fadas terminam com "...e viveram felizes para sempre", mas nunca contam exatamente como essa parte da história? Porque seria, tenho certeza, mais inverossímil que abóbora virando carruagem, ou príncipe fazendo rapel nas tranças da Rapunzel (aliás, eu sempre achei que "rapel" vinha de "Rapunzel"...será?). Ninguém, nem nos contos de fadas, é feliz pra sempre _nem pode ser.
Num de seus livros, Freud cita uma frase de Goethe, escritor alemão: "Nada é mais difícil de suportar do que uma sucessão de dias belos", e depois comenta: "Mas isso pode ser um exagero". É um exagero, penso eu, já metendo o bedelho humildemente, na discussão dos dois grandes pensadores. Muito pior uma sucessão de dias belos, é uma sucessão de dias feios. Ou uma sucessão de chicotadas, boladas no estômago, chifres do namorado...
Mas o que Goethe quis dizer, e Freud ressaltar, é que a felicidade, se for sempre seguida de felicidade, perde a graça. Por isso os dias feios, as chicotadas, as bolas no estômago, e os chifres do namorado são importantes. Sem o contraste dos momentos de sofrimento, somos incapazes de ter momentos felizes.
Mais ainda, acredito que só é capaz de viver a felicidade, quem está aberto para a tristeza (nunca é o fim do mundo...até 2012 tenho certeza disso). É como se a emoção fosse um aparelho de som que tem volume, mas não tem equalização. Se a gente aumenta os graves, aumenta os agudos junto. Se formos nos fechando, nos protegendo da dor, das crises, do desconhecido, a gente se machuca menos, mas também, vive as partes boas com menos intensidade. Além disso, sofrer é fundamental para crescermos e vermos o verdadeiro tamanho das coisas. Vinícius de Morais escreveu um samba que diz assim:

“É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração / Mas pra fazer um samba com beleza /
É preciso um bocado de tristeza (...) / Se não, não se faz um samba não.”

Somos bombardeados com a ilusão de sermos felizes para sempre, ou, dito de outra forma, sempre felizes. Seja nas propagandas de margarina, nas revistas inúteis de celebridades ou naqueles adesivos do tipo “você já sorriu hoje?”. Há uma idéia de que a melhor vida é a de quem está sempre com um sorriso de orelha a orelha. Bobagem. Sofrer não só é inevitável, como fundamental. É nas crises que a gente muda, descobre onde aperta o sapato e inventa novos caminhos. Quem sorri o tempo todo, ou está usando uma dentadura maior que a boca, ou nunca parou pra pensar na vida.
Sofrer, pensar, chorar, mudar...dá trabalho, mas é o preço da nossa autonomia.


(relaxa amiga, na vida só não é passageiro o motorista e o cobrador. ARRARRÁ!humor, mesmo semi-inexistente é fundamental! ;D )

2 comentários:

  1. Um salva de palmas de um principe desmontado que hoje prefere o fervor do combate aos requintes da corte... muito bem escrito. Então, pensei, e se o sentimento não de dias feios e dias belos for por coisas como o seu dia de trabalho, seus amigos e familiares, seus sonhos e metas, estes dias tornan-se dias de vitória, ou dia de derrota... meus parabéns. um abraço de galeria

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  2. Muito lindo o texto meu anjo...vc escreve muito bem bjaoo

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