
Quando se é criança, se tem medo do escuro, do velho do saco preto, de gente muito feia, de cachorro bravo, de ladrão, da policia prender sua mãe e nunca mais devolver, de avião, do barulho da máquina de lavar roupa, de ficar doente e nunca mais sarar, do monstro do armário, da cobra da privada (isso mesmo, da cobra da privada! eu jurava que tinha uma cobra que morava na minha privada, que só acordava à noite para tomar meu xixi! um desconto ok? que eu sou criativa desde criança!). Enfim, tínhamos medo, muito medo, e não tínhamos vergonha nenhuma de sair correndo, gritando ou chorando para pedir colo para a pessoa confiável mais próxima.
Alguns anos depois, só porque já nasceram alguns pêlos no seu corpo, você mora sozinho, tem seu próprio carro e acha que não deve satisfações a ninguém, estufa o peito e proclama "Eu cresci, não tenho medo de nada, e de ninguém!".
Bem, eu cresci, não moro sozinha , não tenho meu próprio carro, de tudo isso, a única coisa que eu tenho mesmo, são os pêlos(poucos, ainda bem), mas mesmo assim eu brado que eu não tenho medo de nada, e de ninguém! Mas lá no fundo, lá mesmo, no meio de toda lama, escondido com todos os meus erros, misturado com todas as minhas frustrações, dividindo espaço com as minhas mentirinhas sadias, tem um sentimento, que eu não sei o nome, acho que pode ser o medo.
Medo de quem? Medo do quê? Eu não tenho mais medo do escuro, nem medo da cobra da privada, e dos outros medos infantis, porque hoje eu sei, que eles não fazem sentido. Hoje eu sei que é impossível ter um monstro no meu armário, assim como se minha mãe não fizer nada de errado não irão prendê-la.
Mas eu sei, que se eu parar para refletir sobre o mundo, eu posso não acreditar mais em Deus e nem nas coisas boas. Que se eu me matar de trabalhar, todos os finais de semana e feriados e ficar viajando o tempo todo, a probabilidade de eu ficar solitária e perder detalhes importantes da vida é quase de 100%. Eu sei que se eu sempre dizer a verdade, nada além da verdade, somente a verdade, eu posso magoar os outros. Que se eu não der atenção à quem me gosta, pode ser que o sentimento passe. Tudo passa na vida, e isso também me dá medo. Eu sei que se eu mudar de cidade talvez eu não vá me adaptar. Que se eu trocar de emprego pode não dar certo, e eu querer voltar e aí, já vai ser tarde demais. Eu sei que se eu voar, eu posso cair, da mesma forma, que se eu mergulhar posso me afogar. Que se eu fizer algo muito diferente, eu posso chocar as pessoas que me amam. E só de pensar em tudo isso, eu sinto um frio na barriga, uma coceira nos olhos, uma vontade de sair gritando e pedir colo pelo amor de Deus!
Péra aí!!
Sair gritando, pedindo colo não é coisa de criança? Sim, mas eu começo a achar viável abrir uma exceção para outras idades também.
Medo é como o amor, quando você menos espera, ele aparece, mexe com você, e de repente ele some, e depois volta de novo e some.
Será que daqui um tempo, esses medos parecerão bobeira,como os de antigamente? Sinceramente eu não sei, só sei que faz parte da vida...
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