Esse é um desabafo. Hoje, aos meus 20 e poucos anos, me deparo com uma grande decepção. Sentimentos que necessariamente preciso colocar pra fora e compartilhar de alguma forma.
Não é porque sou menina/mulher que futebol não é minha praia. Sem muitas habilidades, preferi ser torcedora e espectadora. Nunca quis medir conhecimentos, tenho cá minhas dúvidas, que aos poucos, vou esclarecendo.
Entretanto, enquanto minhas dúvidas são esclarecidas, surge também um sentimento que não consigo denominar, mas é sim de origem negativa, que me faz querer desapegar do espírito esportivo. Aliás, acho que pouco preciso provar aqui sobre meu entendimento no assunto, centroavantes, 4-4-3, 3-4-3 ou propor algum esquema tático para o “nosso” futebol. Afinal, meu desabafo vem de um assunto em que técnicas e propostas vão ficar de lado, colocando na mesa os princípios éticos do futebol brasileiro.
Enquanto emissoras formam cartéis bilionários para comprar os direitos de transmissão de campeonatos esportivos, ainda temos no Brasil crianças morrendo de fome, de contaminação pelo consumo de uma água não potável, entre outras coisas banais. Mas sabe o que acontece a cada 4 anos? As famílias viúvas destes parentes se unem, se vestem de verde e amarelo, penduram bandeiras na janela em um ato de falso patriotismo como se estivéssemos no melhor país do mundo e como se o amássemos.
Acaba uma Copa e todo mundo recolhe e guarda seus escudos nacionalistas para daqui quatro anos.
Os bastidores dos intervalos destas competições não são tratados com a mesma veemência nos meios de comunicação. Não só os intervalos, mas os preparos e os bastidores de um jogo ficam ali, empurrados para baixo de um gramado e só se mostra o tão esperado “espetáculo” entre as quatro linhas.
Às vezes tudo isso me remete ao tão falado, no período de colégio, Pão e Circo romano. Então, vamos entreter as pessoas com um futebol (suponhamos o circo, o espetáculo). Mas aqui nós pagamos para entrar neste circo. E como pagamos.
E também o pão fica por conta do torcedor que para em uma banquinha na porta do estádio e come.
E enquanto as pessoas comem do pão e usufruem do circo, dirigentes dos maiores órgãos esportivos do país devem ficar no Photoshop colocando um nariz de palhaço em cada torcedor que pagou pra entrar no estádio, contando a grana que faturaram e preparando o próximo plano. Pergunto: você está feliz em ter bancado o seu próprio Pão e Circo? Nós, torcedores, é que somos os palhaços. Que por amor a determinado clube até nos sujeitamos a comprar ingresso de cambista. Afinal, que mal tem? As próprias empresas que vendem ingressos têm canal aberto e acordos com tais cambistas. E tenha certeza que os poderosos da alta organização que controla o futebol brasileiro também sabem disso. Aliás, é o que espero. Pois se eles trabalham com futebol, eles devem ir aos estádios e lá ver o que acontece: o entupimento no ouvido de uma frase repetida inúmeras vezes: compro e vendo ingresso, compro e vendo ingresso, compro e vendo ingresso…
Agora pensem sinceramente: isso vai mudar para a Copa de 2014? Se há anos fatos como esses são empurrados para baixo do gramado, esconder por mais três anos não deve ser problema, não é Senhor Ricardo?
Pensem então na situação contraditória: o Brasil, o país do futebol vai promover uma copa que vai custar mais do que as 3 últimas copas do mundo somadas. Se somos o país do futebol, então por que tanto dinheiro? Tenho certeza que não é pra pagar meu churrasquinho na porta do estádio!
E aí vêm emissoras com comentaristas e especialistas no assunto colocando suas opiniões e o público toma como verdade absoluta.
Não é ganhando uma Copa América que vamos salvar a pátria, muito menos com uma Copa do Mundo em nosso próprio país. O país que vai receber a copa do mundo, o nosso Brasil tropical e abençoado por Deus, não tem estrutura para se manter. Não tem ruas devidamente pavimentadas, não tem transporte público de qualidade, não tem estrutura aeroportuária para atender sua população (imagino quando tiver que receber a quantidade de turistas de uma copa do mundo).
O nosso tal país do futebol têm algumas estrelas que poderiam ter sido perdidas pela fome, pela água contaminada ou por outras condições precárias de sobrevivência da maioria da população que aqui habita. Mas hoje elas recebem milhões e, por isso, uma pressão de um país inteiro cobrando gols, dribles e resultados. Mas saibam que uma pesquisa do departamento de Registro de Transferência da confederação Brasileira de Futebol (CBF) revelou que, em 1998, 52,9% dos jogadores profissionais recebiam quantias inferiores a um salário mínimo; 30,5% de um a dois salários; 7,9% de dois a cinco; 2,7% de cinco a dez; 1,8% de 10 a 20; e 4,3% recebiam o equivalente a mais de 20 salários mínimos
Ser estrela, ser famoso, ser aquele jogador que todo jovem sonha ser, realmente não passa de um sonho. E sabe aqueles cifrões que achamos que movimentam o futebol? Pode-se perceber que não está na remuneração de quem faria o espetáculo, de quem tocaria a bola a caminho de um gol. E acho que nem preciso falar onde é que esses cifrões vão parar. É melhor cada um tirar as suas conclusões.
Estou louca pra ver comentaristas falando da obrigação do Brasil em vencer a tal da Copa América (que já era) e depois a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Ninguém ali que veste a camiseta amarela com um escudo no peito tem obrigação alguma de trazer momentos passageiros de alegria em um grito de gol. Ninguém ali tem que provar que continuamos sendo o país do futebol como era com Pelé, Garrincha, Zico e outros mais.
Perder e ganhar faz parte do jogo. Saber perder e ganhar faz parte do espírito esportivo, este devidamente levado por água abaixo.
Por que o Brasil tem que ganhar todas as competições? Por que temos que ser os melhores em tudo para ter graça? Por que temos a certeza que nossos jogadores são os melhores, temos os melhores times, somos os maiores do mundo? Esporte, por definição, é competitivo, possui vencedores e perdedores e, nem sempre, vence o “melhor” – conceito esse subjetivo por natureza, que depende de um ponto de vista.
Brasileiro tem essa coisa na cabeça: se não for para a Formula 1 e se não vencer na Formula 1, o piloto não presta para nada. É uma cultura de pouco conhecimento e muita paixão.
Se pensarmos em um piloto campeão de Formula 1 como qualquer outro esportista ou seleção melhor do mundo, a relação é a mesma. O que mais o vôlei brasileiro precisa fazer para ganhar de vez a paixão dos torcedores? É claro que tem crescido, mas achamos que o Brasil fez papelão ao perder uma final para uma das outras melhores seleções do mundo.
E as meninas do futebol? Vão continuar ganhando desprezo e serem taxadas de “medrosas perante os EUA” até serem campeãs do mundo? Só ligamos para o Tênis quando surge um Guga? Só acompanhamos automobilismo quando nos gabamos de Senna, o maior de todos os tempos? E Daiane dos Santos, Diego Hipólito… “Ah, não conseguem uma medalhinha de ouro nas Olimpídas. Patético!”
O Brasil devia ser conhecido como o país da corrupção e da má distribuição de renda. Devia em 2014 não acontecer aqui uma copa do mundo, mas uma exposição da real situação do país. Daqueles que promovem o Pão e Circo (particular e caro) e cada vez mais enchem seus bolsos com dinheiro alheio.
Um país que constantemente vive com CPIs, acusações políticas, corrupção entre outras coisas, mas que vive principalmente com uma classe miserável que nem o bendito pão tem pra comer, não merecia receber uma Copa do Mundo. Os gastos pra esse evento poderiam ser revertidos em prol de uma população que, então, seria patriota e nacionalista não só a cada quatro anos.
É lamentável e vergonhoso morar num país como esse, onde a diversão para estrangeiros é prioridade e onde os desvios de dinheiro já viraram rotina e se passam como corriqueiros em nossos dias.
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