quarta-feira

Seu sangue me dá IBOPE

Estes assuntos com relação ao seqüestro e todas as notícias que pipocam após um caso de grande repercussão nacional ainda hão de durar algum tempo. Com o seqüestrador preso e a menina assassinada, a conclusão do caso com certeza ainda renderá muitas manchetes de jornais, revistas, sites e etc. A polícia deixou muitas brechas para que os especialistas, os críticos dentre outros interessados no assunto possam especular a respeito do trágico fim.
Parece que os tiros só foram disparados após a ação das autoridades o que obviamente caracterizaria mais uma falha grave numa ação totalmente questionável.

Por outro lado fico me perguntando como reagiria a imprensa, a opinião pública e os setores que trabalham com direitos humanos (que não devem ser confundidos com protetores de bandidos, embora muitos queiram associá-los somente a este papel) caso o rapaz fosse atingido ao vivo na TV com um balaço no meio da testa.

Primeiro, creio que vale a pena questionar até que ponto a imprensa colabora com a resolução de um caso desses e o quanto atrapalha. Câmeras de TV, repórteres de jornal, radialistas entre outros profissionais da mídia, trabalham e vivem de investigar, informar, acompanhar e registrar tudo o que ocorre, mas até onde a influência desses mensageiros da “realidade” podem ser úteis e qual é o momento onde as autoridades precisam se posicionar e determinar limites e regras para a atuação de todos os envolvidos num episódio tão sinistro.
O que a apresentadora de um programa de TV quer quando entra ao vivo num bate papo com o seqüestrador? Será que ela se posiciona como se pudesse “ajudar” a resolver e assim usar da influência de seu veículo de comunicação para sensibilizar o sujeito?
Continuando... Além obviamente do interesse com os índices de audiência, por que é permitida essa “invasão” por parte de pessoas que não tem absolutamente nada a acrescentar numa hora de aflição e perigo?

Fico aqui imaginando a cena:

- “Produção, consegui o telefone do seqüestrador. Negociei com ele e o cara aceitou falar com a gente ao vivo na TV.

- Parabéns caro colega, isso será de grande utilidade para nossos telespectadores, aposto que todas as outras emissoras também tentaram, mas dessa vez o ponto é nosso!!!!!!


Então tudo se desenvolve como pudemos observar.
Esse glamour todo que rege a atmosfera de um capítulo que marca para sempre a história de uma cidade, de suas famílias, de seus cidadãos é benéfico para quem está envolvido na negociação, no comando de seus soldados, na conduta dos protagonistas ou pode gerar ações equivocadas, decisões errôneas e atitudes desnecessárias ao custo de toda pressão midiática?

Quando uma câmera de TV ligada aparece em qualquer lugar, você caro leitor, pode observar o quanto as pessoas que estão ao seu alcance mudam suas condutas. Os mais atirados tentam chamar atenção pra si, os mais tímidos se isolam, aqueles que têm alma de figurante se posicionam de forma que possam aparecer e todo o ambiente se transforma e sofre as consequências do piscar vermelho ao lado da lente que lhes vigia.
Isso é muito evidente.

Não estou dessa maneira querendo censurar ou desmerecer, sequer desfavorecer os profissionais que tem sua liberdade garantida para cobrir um assunto tão sério como esse. O que me lateja a mente é a seguinte coisa: Será que não podemos equilibrar o papel dos jornalistas de informar a população com o papel da polícia de proteger a vida dos inocentes e acima de tudo, de realizar seu trabalho com a tranquilidade necessária para que as consequências não sejam tão problemáticas?

Existe uma forma de todos trabalharem sem que um prejudique a demanda do outro?

Uma autoridade chegou a perguntar na entrevista coletiva “e se nós tivéssemos matado o jovem quando se colocou a disposição do ataque, qual seria a repercussão?”.

Com certeza apareceriam correntes para criticar e sugerir outras formas de solucionar e de um jeito ou de outro não faltariam críticas a tal atitude, pelo simples fato de que numa democracia, todos têm direito a opinião.

No programa da TV Globo, Fantástico, praticamente todo dedicado ao assunto, um especialista que trabalha fora de nosso país chegou a dizer que o correto era explodir os miolos do rapaz, não interessando, sua idade e nem suas motivações. Que se fosse a SWAT não passaria de 9 horas de negociações (se não me engano) e por fim apontando todas as falhas da polícia brasileira.

Enfim, mais uma vez concluo que precisamos nos posicionar com relação as questões sérias que observamos em nossa sociedade. Quando uma autoridade não se posiciona diante de uma grave situação, naturalmente isso abre precedente para que todos nós possamos especular qual seria a melhor decisão a ser tomada.

Fica a aqui as seguintes reflexões:

- Como a imprensa pode fazer seu papel sem influenciar os envolvidos?
- Até que ponto todo o glamour que se envolve num caso como esse atrapalha as etapas e metas de resolução?
- Como as autoridades devem se colocar diante da legitimidade democrática dos meios de comunicação na cobertura e propagação de tais informações?


É claro que os olhos voltados para problemas como estes são sempre importantes para evitar excessos e desrespeitos aos direitos e deveres de cada um diante da lei. Contudo acredito que mais uma vez todos nós falhamos, toda a sociedade falhou e permitiu que novamente um caso que deveria ser conduzido com inteligência e sensibilidade se tornasse mais uma tragédia a ser oferecida ao regozijo de uma população sedenta por sangue.

O que 10 mil pessoas foram fazer no enterro da pobre menina, se milhares de casos semelhantes a este acontecem no país todos os dias?
Resposta: O mesmo que foram fazer na porta da casa dos Nardonis.

APARECER NA TV.

Não acredito na solidariedade desse povo.
Desculpem-me.
Para mim é só mais um espetáculo de horrores.

*Só pra constar:
Inconveniência:do Lat. inconveniente adj., que não convém; de uso prejudicial; impróprio, inoportuno.